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Reflexos




May 6, 2011

Gonzalo Bénard




"Oneness" -  Exposição do fotografo Gonzalo Bénard

Inauguração: 6 de Abril de 2011, na Praça das Flores Galeria

(por Hugo Roman)
Categoria: Reflexos



Muitos já ouviram falar em Gonzalo Bénard e o definiram como um grande artista.
O seu trabalho fotográfico, reconhecido em vários países do mundo conta com vários livros fotográficos tais como: “IN A NON SENSE WORLD”, “My Lonely Mornings, a satellite experimente”, “Androgyny - Sacred Nature” e “Inscapes, BodyScapes & Black Beans with CocoNuts”.
Por outro lado destacam-se várias exposições de fotografia entre as quais a exposição: ONENESS.



Gonzalo Bénard, confessou que sentiu uma enorme
necessidade física, psicológica e emocional de voltar a sentir o fogo, a água, o ar, a terra e o ferro, os elementos orientais que o fizeram voltar a sentir exactamente o Oneness” relacionado com o homem natureza, o homem animal e o homem mulher – elementos que estiveram na origem desta colecção de fotografia. Como revelou Gonzalo Bénard, trata se de uma colecção de auto-retratos: no fundo são todos auto-retratos mas em que eu me ponho na situação de planta, ou na situação de animal, ou na situação de mulher sendo homem.


No dia 6 de Abril de 2011, na Praça das Flores Galeria teve lugar a inauguração da exposição Oneness de Gonzalo Bénard. Porque Oneness?

“Oneness... em português não há uma palavra concreta, era preciso uma fusão de palavras para descrever esta expressão. Oneness, relaciona-se com o meu trabalho que não aborda apenas a questão do género homem versus mulher, mas também a comunhão que existe ou que poderia haver entre o homem, animal e natureza. Depois de muitos anos a viver em Barcelona tive uma overdose urbana que despertou em mim uma necessidade enorme de voltar a sentir os elementos.”


Quais foram os elementos, os símbolos utilizados e respectivamente presentes nos auto-retratos da exposição Oneness?

“Vivi muito tempo entre o sul de Espanha e o Alentejo rodeado de vários animais tais como ovelhas e cavalos e no meio de várias plantas. Como tenho imenso respeito não só pela natureza humana, mas também pela natureza em si, a natureza viva, utilizei estes elementos e acabei por fazer fotos sem danificar absolutamente nada. Por exemplo as fotografias que faço com às flores faço-as sem as cortar mantendo a flor na árvore viva como eu e assim, na fotografia são representados dois seres vivos. Um outro exemplo semelhante, mas que se prende com outra parte do meu trabalho – os rituais – foram as fotografias com a galinha. São os rituais de vida e os ritos dos mortos usados nomeadamente no continente africano onde há uma forte comunicação entre o humano e a natureza. Enquanto em muitos destes rituais os animais são sacrificados, através da fotografia da galinha e outros animais procurei recriar um ritual sem sangue. Assim, no que diz respeito aos outros elementos há uma fotografia na qual estou na pele de um cavalo a ser domado pelo homem. Brinco um pouco com este facto e pergunto-me: até que ponto o homem não poderia ser domado pelo cavalo? Efectivamente, ponho-me a mim mesmo na pele do cavalo a ser domado pelo homem e na pele do homem a ser domado pelo cavalo. Consequentemente, destacam-se as ovelhas, com as quais comunico na tentativa de sentir o que é estar com as ovelhas, o que é que é ser ovelha. Neste sentido, inspirei-me na vida do campo onde vou buscar o sentir das plantas, o sentir da mulher, o sentir dos animais.”

As suas fotos transmitem vida

“Sim sem dúvida, uma continuidade em Oneness, uma continuidade da vida do homem com a natureza animal, com a natureza vegetal, etc.”

Trata-se de uma exposição constituída por auto-retratos com características próprias?

“Sim, há várias características, uma delas prende-se com uma fotografia tirada uma semana antes de eu entrar em coma, o facto de eu próprio ter passado por uma experiencia de morte ou quase morte e quando voltei à vida fiz todas as outras, mas comecei exactamente pelo mesmo personagem antes de entrar em coma.”


Uma vez afirmou que na fotografia usa o próprio corpo como forma de representar os conceitos, tendo isto em conta, qual foi o seu estado de espírito no momento da criação e da combinação desta série de auto-retratos?

“Isto são auto-retratos do ponto de vista em que eu uso o meu corpo, mas são sobretudo peças conceptuais em que me ponho no papel dum determinado animal, duma determinada planta, duma determinada personagem, portanto represento alguém como se estivesse num palco. Não faço auto-retrato para mostrar que sou bonito ou feio. Os auto-retratos que faço são sempre conceptuais, são uma representação de alguma coisa. Normalmente faço-os de manha cedo quando o meu consciente ainda está meio adormecido e não se sente tanto aquele peso de filtragem que o consciente tem. Aliás em muitas das fotografias ainda se notam os vincos da almofada e dos lençóis porque como disse faço-as imediatamente quando acordo exactamente para me encaixar melhor no papel que estou a representar.”


Os próprios sentimentos e as emoções não interferem na representação das suas personagens…

São fotografias muito honestas e muito cruas, porque não têm o consciente a interferir. Eu não sei se nós somos mais emocionais de manhã, mais emocionais à noite, ou mais emocionais à tarde ou mais racionais de manhã. Se calhar somos mais racionais de manhã e mais emocionais à noite. Contudo, as minhas fotografias não têm uma grande vertente emocional e também não é isto que eu pretendo transmitir. Neste momento, o que procuro é transmitir uma relação da natureza que não é emocional, uma relação da natureza viva, que se estabelece antes do despertar do consciente, quando não há emoção, consciência, nem racionalidade. No fundo estou a retratar a empatia crua e directa com a natureza em que vivemos, sem a interferência do consciente.”


Se tiver oportunidade de num retrato representar alguma pessoa ligada a arte que está ou não entre nós quem representaria?

“ Em primeiro lugar, os meus retratos têm mais a ver com a personalidade do que com a pessoa em sim. Tendo isto em conta gostava de ter fotografado algumas grandes personalidades não só da arte, mas também da filosofia e da música, porque há personalidades muito, muito interessantes de todos os tempos, mas das que mais têm a haver comigo ou com as quais mais me identifico talvez seria algum filosofo, ou estadista. Obviamente, posso dizer que gostaria de ter fotografado Ghandi, mas quem não gostaria? Relativamente à fotografia há grandes fotógrafos, tal como Joel-Peter Witkin cujo trabalho me fascina. É isto e talvez a curiosidade de o conhecer como pessoa que o torna numa das pessoas que gostaria de conhecer para pensar num retrato dele, uma vez que não me lembro de ter visto um retrato do mesmo.

De uma forma geral gostaria de retratar algumas pessoas pelo trabalho que desenvolveram, pelo valor que têm como pessoas, mesmo não sabendo como são pessoalmente. Talvez gostasse de os por numa situação de confronto, porque, normalmente a nível de trabalho e também na vida, acabo por ser muito advogado do diabo. Acabo por poder ter algum gozo em por as pessoas numa situação pouco confortável, mas sempre pessoas inteligentes e que acabam por aceitar este desafio, este challenge.”


Os auto-retratos que constituem o Oneness estão de alguma forma relacionados com as experiencias ligadas à arte que marcaram o seu percurso artístico desde a infância até agora?

“Sim é natural, eu desde muito cedo frequento museus da arte antiga, do mundo e de Lisboa. Há alguns retratos meus, tais como o da cabeça de galinha que têm talvez alguma influência do surrealismo, ou de algum bizarrismo que sempre fui alimentando no meu trabalho, não só em termos fotográficos mas também de pintura isto porque todo o meu trabalho fotográfico, sobretudo a nível de luz e a nível da composição temática tem uma base de pintura.”


Para finalizar esta entrevista seria interessante se respondesse a três questões mais curiosas:

A inauguração desta exposição decorreu no início do mês de Abril que é o símbolo do renascimento quando na primavera a natureza renasce para a vida. Já pensou numa relação entre a sua forma de fazer a arte para com esta estação do ano ou foi uma coincidência?

Foi puramente coincidência, na Primavera tudo renasce, as plantas abrem, os animais parem, a natureza torna-se mais dinâmica. Também é uma fase quando estando comigo mesmo acabo por trabalhar mais a natureza. Sou mais de Primavera e Verão que do Inverno.”


Em poucas palavras, como se define como artista?

“Não sei, eu nasci artista. É tão natural em mim criar diariamente que não sei definir isto de maneira alguma. Entreguei-me totalmente à arte.”


A ultima questão, se um dia estivesse em frente ao criador do universo, o que lhe diria?

“Existe um criador do universo? Criadores do universo somos todos, uns mais criativos que outros, uns a contribuir mais que outros. Não tenho o ego de Salvador Dalí que poderia dizer: eu não sou um artista, eu sou a arte ou eu não sou o criador do universo eu sou o universo. Eu acho que todos nós criamos e em todo o momento estamos a criar o universo que está sempre a ser criado ou recreado. Não sei se existe um criador do universo, existe sim vários recriadores do universo no qual eu me incluo.”




Texto: Hugo Roman


Mais informações sobre o fotografo Gonzalo Bénard:

http://www.gbenard.com

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