
(foto:"atmosferas do corpo")
Maria Treva
Palavras e imagens.
A fusão artística, de um talento em potência.
ENTREVISTA
RWM - Quem é a Maria Treva?
MT - De que maneira é que nos vimos? Esta pergunta é de difícil resposta sem cair num lugar-comum.
Envolve o olhar no próprio sujeito e projectar aquilo que nos parece real é tarefa árdua, o que poderá ou não corresponder à realidade dos factos, uma vez que essa realidade é validada pelo “julgamento” das pessoas que estão à nossa volta.
Poderei dizer que sou uma pessoa vulgar, de gostos simples, que tem uma visão da vida pela percepção não convencionada, sustentada na pré-reflexiva questões da essência humana, sem cair na efervescência deslumbrada da análise excessiva de juízo de valores.
Sou por natureza uma pessoa reservada, o que para alguns poderá parecer ser o culto do “ ser misterioso”, mas na verdade é que dou pouco valor a factores de “ ter” segundo os padrões da sociedade: Se tenho formação superior, ou ensino básico, se tenho x ou y idade, se tenho capacidade económica ou não, por exemplo, para mim são factores irrelevantes, não passam de escalas de socialização que contribuem para estereótipos que eu tanto abomino e como tal faço os possíveis para os desconstruir, não alimentando o “ ter” em detrimento do “ ser”.
Afinal não passámos de um número nos labirínticos arquivos de identidade, tudo não passa de um invólucro e decididamente a embalagem não deve, nem pode ser superior ao conteúdo.
Simples ou sofisticadamente simples, Como se interrogam quem diz que me conhece?
RWM - O que te inspira?
MT- Tudo. Não estou a exagerar. O que não me inspira, não é porque não seja inspirador, é pela minha incapacidade de absorver.
RWM - O que te move? MT- O que me move são as pessoas e por conseguinte a movimentação da vida, da morte, do amor que elas produzem.
RWM - Em que projectos estás envolvida?MT - O meu maior projecto, que surgiu da casualidade, como aliás tudo o que o que me envolvo, é fruto da casualidade.
Este projecto, era suposto ser ocasional, mas abraço-o há alguns anos. É numa instituição de solidariedade social, onde uma equipa, na qual faço parte, desenvolve diversas actividades no âmbito das várias expressões de arte: teatro, literatura, artes plásticas, fotografia… com o objectivo de promover a autonomia/cidadania através das artes de grupos potencialmente vítimas de exclusão.
Este projecto contínuo e pela sua dimensão, permite-me um alargamento de muitos outros projectos paralelos e ao mesmo tempo complementares, o que poderei dizer que estou “ enterrada” em mil projectos, mas muitos deles não passam disso mesmo, “ projectos” que por razões várias não passam disso.
Para além de que, pessoalmente tenho alguma dificuldade em “assumir” compromissos, pelo menos no que diz respeito à criatividade. Não sei criar por encomenda. Assim, de um modo descomprometido colaboro com alguns jornais, revistas na feitura de crónicas e fotografia, que quando os editores acham oportuno publicam.
RWM - Uma qualidade: MT- Eheheh! Qualidade? Não me ocorre alguma. É grave?
RWM - Um defeito:
MT- Só um?
RWM - Um vício: MT- Sou uma viciada em potência. Neste momento estou viciada nesta entrevista.
RWM - Uma musica: MT- Entre tantas, escolho “ Hight Hope” - Pink Floyd
RWM -Um livro: MT- “ O Medo” Al Berto
RWM - Um estado de espírito:
MT- Contemplação
RWM - O teu lugar favorito:
MT- O mar. Decididamente o mar.
RWM -Um sonho: MT- Realizar uma exposição individual na “ Fundação de Serralves” onde pudesse conjugar fotografia com poesia (meus dois amores) Sonho igualmente com a possibilidade de ter um estúdio fotográfico só para mim.
RWM - Qual é o papel da poesia na tua vida?
MT- A poesia é a simbiose dos elementos que me permite respirar. É o acto sacramental que me faz sentir que o amanhã existe. É fundamental, excede a minha existência.
RWM - O que é a alma química?
MT- “ Almaquímica” é um poema que escrevi. Poema no qual tento traduzir a intensidade da vida num único momento. Momento esse, que algures no espaço atinge-se o “ponto G” da alma.
RWM - Quando começou a tua paixão pela fotografia? MT- A paixão pela fotografia começou pela “ culpa” de uns professores de “ arte & Design” que tive quando frequentava a escola “ Soares dos Reis”, que influenciaram e que me incentivaram a tirar um curso de fotografia na Escola Técnica de Fotografia do Porto, dirigida pelo então fotógrafo Queirós de Faria, onde conheci o Paulo Gaspar Ferreira.
Estas pessoas foram cruciais para que a minha paixão pela arte fotográfica estivesse sempre presente na minha vida, umas vezes mais manifestamente representada outras mais adormecidas, mas sempre paixão.
Aproveito a oportunidade para fazer o tributo a todos eles: Ao Sottomayor, ao Rangel, ao Queirós de Faria e ao Paulo, o meu muito obrigada por tudo o que vocês contribuíram. Sem vocês, a minha passagem por esta vida, era decididamente mais vazio.
RWM - A foto perfeita, será uma combinação de: MT- Não creio que haja fotos perfeitas, na medida que não creio que haja perfeição. A perfeição é um conceito que os “deuses” inventaram para que a espécie humana não se extinga.
Sempre procuramos algo. A perfeição, sinónimo da insatisfação humana, mantêm-nos vivos, longe de qualquer pensamento destrutivo. O tempo participa na percepção visual, na concepção de ideias que “ os experimentais” ousam criar.
Descobrem-se novas concepções, novas percepções estéticas que incitam emoções, pensamentos, que nos representem, quer no pensamento individual, enquanto artista, quer o pensamento colectivo, enquanto humanidade.
Neste sentido, enquanto artista, a fotografia perfeita é a desconstrução do conceito perfeito estereotipado, é fazer do horrendo, o belo, é fazer através de uma imagem, o pensamento crítico, incitar emoções, transformar o “clic” em algo memorável, fruto ou cristal da sensibilidade artística, aberta ao real de uma visão crítica.
RWM - O que/ quem gostarias de fotografar? MT- Gostaria de fotografar rostos. Rostos ditos vulgares, anónimos por esse mundo fora em contextos distintos.
RWM - A história desta foto (atmosferas do corpo):
MT- Todas as fotos têm uma história/um contexto “ Backstage”. “Atmosferas do corpo”é mais uma vez fruto da casualidade, aconteceu nas múltiplas experimentações de um clic (na tal procura de um foto perfeita) que se enquadrasse no que eu e o meu namorado pretendíamos: posar a título experimental. Também ele, um apaixonado por fotografia experimental e responsável pela minha cedência de passar a estar à frente objectiva.
Confesso que sempre fui renitente quanto a ser objecto fotográfico, partilho do pensamento ancestral de algumas tribos primitivas que: por cada fotografia que somos expostos, um pedaço da alma é arrancado, mas…o Homem é ele e a sua circunstância – Ortega y Gasset e como tal cedi e foi, é arrebatador!
Neste contexto, em auto foto surge “ Atmosferas do corpo”.
Eu e ele num cruzamento de braços em intimidade absoluta.
(Poesia de Maria João Mesquita):http://www.luso-poemas.net/modules/yogurt/index.php?uid=479 Texto. Inês Soares
Foto: Maria João Mesquita